3 de jan de 2014

CINEMA: A Grande Beleza (2013), de Paolo Sorrentino


Você chega a uma balada repleta de gente milionária, vestindo “o último grito da moda”, animação e drogas por todos os lados. A música é eletrônica, no volume máximo, executada pelos melhores DJs. Personalidades excêntricas da high society, "dignas" de aparecer na próxima edição do Mulheres Ricas, fazem pose para as câmeras, se debruçam sobre os mais sarados do local, acordam, ainda meio entorpecidas por conta do álcool, do ecstasy e da música alta, junto aos primeiros raios de sol. E é aí que você começa a perceber que envelheceu, pois nada disso o anima, você deseja voltar pra casa mais cedo, decepciona-se porque nada lhe soa realmente novo, diferente ou relevante; tudo é extremamente artificial. Bom, isso pode não lhe acontecer com frequência, mas é o que ocorre, logo nos primeiros minutos de A Grande Beleza, ao escritor Jep Gambardella (Toni Servillo).

Gambardella é o renomado escritor da ficção que observa e se camufla num país decadente e ao mesmo tempo contraditório. Berço de uma das mais poderosas religiões do mundo, país que nos brindou com grandes mestres das artes como Leonardo DaVinci e Michelangelo, a Itália de hoje (e todo o planeta, por que não dizer?) é assolada por futilidades, exibicionismo e pessoas praticamente vazias de fé ou perspectivas.  Gambardella, portanto, é o reflexo dessa sociedade tão mentalmente inerte: está há anos tentando escrever um novo livro, mas não sai nada. Seus momentos de devaneio acontecem quando, ao deitar no quarto, ele observa o teto e imagina um oceano e toda sorte de ideias, no entanto ele não consegue colocá-las no papel, vive da glória e do prestígio do passado. 

O diretor Paolo Sorrentino, ao colocar sob o microscópio sua própria nação, outrora tão fundamental para o desenvolvimento mundial, agora transformada num dos centros da maior crise econômica que a Europa já enfrentou, isso sem mencionar os escândalos sexuais e de corrupção envolvendo o Vaticano e os tubarões da política, como Berlusconi, faz de A Grande Beleza uma obra magistral. Contudo, não é tão-somente isso que faz deste um dos melhores filmes de 2013. O estilo adotado por Sorrentino, uma nítida referência (e reverência) a Fellini, transforma A Grande Beleza numa espécie de híbrido dos dois mais importantes trabalhos assinados por Fellini na década de 60 — A Doce Vida (1960) e (1963) —, ou seja, não tem como errar.

Sorrentino marca um gol e tanto e nos apresenta o melhor filme italiano em mais de uma década. É como se ele mesclasse os personagens de Marcello Mastroianni das duas obras acima mencionadas: o cronista playboy de A Doce Vida, que se infiltra nas tristes orgias dos ricos e famosos + o cineasta em crise artística, de 8½, obcecado pela lembrança das mulheres que tivera em sua vida. Gambardella é a fusão de ambos, numa versão envelhecida e pessimista.

O personagem central perambula de um lado para o outro, em busca de inspiração. É assim que ele conhece belas mulheres que não têm nada além da superfície, ricaços desesperados pela “falsa juventude eterna”, ludibriados por cirurgiões plásticos que injetam botox em suas faces e confete em seus cérebros. Em determinado momento, ele chega a um célebre artista que, desde criança, faz um autorretrato diário (sem escapar nenhum dia sequer). Gambardella, então, põe-se a chorar — o espectador não sabe se é de emoção ou de desolação por ver uma obra tão absurda e pretensiosa. No fundo, o público vai ficando amargurado e sem esperança, sobra-nos apenas uma reavaliação de tudo aquilo que nos cerca, se de fato podemos testemunhar a tal beleza do título. O filme, sim, é de uma beleza singular, mas sua mensagem só reforça a feiura que o ser humano é capaz de exibir, muitas vezes sem se dar conta.

2 comentários:

  1. Adorei a dica, seu blog é muito legal.

    Beijos
    Agenda Fashion

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    1. Obrigado, Talita! Pode aproveitar a dica que esse filme é realmente ótimo rs
      Bjs e bom restinho de semana!

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